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quarta-feira, 10 de junho de 2009

SUGESTÕES DE LEITURA PARA JUNHO, por Tiago Patrício

Teatro:


"Peça com Repetições, (A)tentados"; de Martin Crimp, edição Campo das Letras
Se o teatro de Sarah Kane possui uma estética alucinada que toca o público através de electrochoques, num novo teatro da crueldade, Martin Crimp lança-nos a ideia de que não somos quem realmente pensamos que somos e que vivemos numa época não humana, num anúncio. Teatro por vezes sem personagens, num mundo dividido entre cidades assépticas e cheias de arte, cafés elegantes e roupas atraentes nas montras e outro mundo devastado por bombardeamentos, devastação e sangue nas ruas. Uma orquestração de tempos e motivos de respiração, num jogo dramatúrgico de ecos e repetições. (retirado da introdução de Paulo Eduardo Carvalho)

"Inverno" e "O nome" - Jon Fosse, edição Campo das Letras e também nos Livrinhos de Teatro das edições Cotovia
Jon Fosse é Norueguês e estreou-se na literatura em 1983, é um dos dramaturgos contemporâneos mais representados na Noruega.Estreou em Portugal, em 2000, com a peça "Vai vir alguém", pelos Artistas Unidos no espaço A Capital, em Lisboa.


Ensaio

Um quarto que seja seu - Virgínia Woolf, editora Vega
Um livro que faz eco da falta de independência das mulheres até ao séc. XX para poderem escrever. A falta de autonomia financeira, de pensamento e de espaço em casas e famílias que reclamavam o tempo e a disponibilidade feminina. "Um quarto que seja seu" continua a ser uma referência para quem pretende descolar de uma escrita naturalista, de justificações e complexos e iniciar um caminho próprio de tentativa e erro, de riscos e quedas em abismos criativos.

O declínio da mentira - Oscar Wilde
No seu estilo exuberante e de um humor vivo, Wilde relembra que é a vida quem imita a arte e não o contrário. Um tema actual em que os publicitários/colunistas/comentadores dos jornais e televisão actualizam e fabricam diariamente a realidade em que devemos acreditar, enquanto tudo arde abaixo dos nossos pés.



Poesia



Homens que são como Lugares mal situados, Daniel Faria, Fundação Manuel Leão
No mês em que passam 10 anos do seu desaparecimento, Daniel Faria consolida um espaço de referência na poesia portuguesa contemporânea.

"Homens que são como casas saqueadas
que são como sítios fora dos mapas
como pedras fora do chão
como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
homens agitados sem bússula onde repousem
homens que são como fronteiras invadidas
que são como caminhos barricados
homens que querem passar pelos atalhos sufocados
homens sulfatados por todos os destinos
desempregados das suas vidas

(...)
Homens tão impreparados tão desprevenidos
para se receber
homens que trabalham sob a lâmpada
da morte
que escavam nessa luz para ver quem ilumina
a fonte dos seus dias"


Obra Poética - Cecília Meireles
Poeta brasileira, recebeu o prémio da academia brasileira em 1938, pela primeira vez concedido a uma mulher."Um viver permanente contíguo à morte, um sentir-se ausente e separada do amado por incapacidade de uma perfeita comunhão e porque a morte foi outra. Um desentendimento com a própria condição, uma recusa a julgar-se e a julgar os outros, um saber-se diferente e excluída." Nas palavras de João Bénard da Costa em 2001


Ficção



As casas de Julho e Agosto - Maria Gabriela Llansol, Relógio d'Água
"Um tratado sobre a escrita e a leitura e a servidão; sobre a pobreza e a sobrevivência; sobre o humano e o pré-humano. Eis um livro sobre o despojamento. O leitor deve esquecer os lugares comuns da cultura, o sítio restrito do aquário; deve abandonar a edeia de narrativa e a ideia de clausura que lhe subjaz e entrar no rio que aqui se confunde com o mar (da escrita) abarcando a ideia da casa aberta e fechada, nada ficando a saber da sequência dos factos narrados." José Augusto Mourão


O livro das igrejas abandonadas - Tonino Guerra, Assirio & Alvim
Tonino Guerra nasceu em Itália, trabalhou em cinema como argumentista de Michelangelo Antonioni, Fellini, Tarkovsky e Angelopoulos. Escreve poemas num dialecto em que quase ninguém fala, o romanholo e conserva-se fiel aos seus pequenos contos, fábulas e à tradição oral da sua infância "É um camponês cosmopolita. É no campo, onde viveu a infância e aonde regressou, que estão as suas raízes, as suas obsessões primordiais, o seu espaço mágico e porventura a sua língua. Mas foi a cidade que o levou ao encontro do mundo, dentro e fora de Itália, e lhe revelou a irradiação secreta que os ritos campestres podem ter num imaginário cosmopolita" Vicente Jorge Silva




Tiago Patrício nasceu no Funchal em 1979 e cresceu em Trás-os-Montes. É farmacêutico pela Universidade de Lisboa e estuda actualmente na Faculdade de Letras. Começou a publicar poesia nas antologias Jovens Escritores de 2007 e 2008. Realizou uma residência artística em Praga em Novembro de 2007, onde trabalhou com o Conservatório de Dança e com a Companhia Nacional de Bailado da República Checa.Fez uma teleperformance com poemas traduzidos para Checo no Teatro Archa em Junho de 2008Com "O Livro das Aves" venceu o prémio Daniel Faria 2009.Trabalha actualmente como farmacêutico no Hospital Prisional de Caxias.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

SUGESTÕES DE LEITURA PARA MAIO, por Nuno Brito

Detectives Selvagens - Roberto Bolaño, Edições Teorema
Dois poetas, Ulisses Lima e Roberto Belaño em busca de Cesária Tinagero uma poetisa perdida no norte do México. Um trama policial rodeia o seu encontro e a sua fuga para a Europa. Uma narrativa polifónica que segue a pista das suas andanças por França, Espanha, África, Israel, Áustria. A história é delineada pelos personagens que contam a vida dos poetas quando se cruzam com o seu caminho, uma visão da pressa de viver no meio da sórdida e irónica vida contemporânea. Susang Sontag define Roberto Belaño como o líder da nova geração de narradores da Hispano América.

O Beijo da Mulher Aranha – Manuel Puig, Relógio d’Água
Tradução de Elsa Castro Neves
Escrito em 1976 e proibido logo na Argentina, o Beijo da Mulher Aranha foi adaptado para cinema por Héctor Balenco. Conta a história de dois presos que partilham a mesma cela, Valentín, prisioneiro político e Luís Molina, um homossexual que teme pela morte da mãe. O cinema serve de motivo de conversa entre o que convém não dizer e o que é preciso falar para sobreviver.

O Espelho que foge – Giovanni Papini
Conjunto de contos que Jorge Luís Borges escolheu para a Biblioteca de Babel, a colecção que lhe pediram para organizar. Uma obra prima do conto contemporâneo onde a perversidade assume uma grande dimensão humana num equilibro tenso. Grande obra de construção de personagem do autor da História de Cristo e GOG.

O Mal de Montano - Enrique Vila-Matas, Edições Temas e Debates
Se Bartleby e Companhia girava à volta de notas de rodapé de um texto que não existia, O Mal de Montano é exactamente o contrário: escrever obsessivamente, levar a vida através das vidas que os outros escreveram; a realidade é transgredida pela imaginação literária e o escritor converte-se no objecto da sua própria trama. Exemplo de transversalidade e experimentação “O Mal de Montano” é uma expiação da vida culpável que resiste a ser escrita. Se Vilas Matas não conseguiu com a sua primeira romance, a “Assassina Ilustrada” fazer morrer o leitor revelando-lhe um segredo vital, neste livro logra enfermar, contagiar o mal, a saber: a literatura.

As Partículas Elementares - Michael Houellebecq, Edições Temas e Debates
Conhecido como o último Infant Terrible das Letras francesas, Michael Houellebecq transmite-nos a sua visão pessimista e individual do futuro. Dois irmãos, um literato e outro cientista unidos por um destino comum: a mãe abandona os dois para se juntar a comunidades new age . Se a primeira transformação metafísica sofrida pela Humanidade foi o Império Romano e o segundo o Cristianismo, o passo seguinte, para o escritor é a ciência moderna, tomando como referência Aldous Huxley; O autor afirma que a reprodução assexuada dos seus componentes é o que vai salvar os que nos sucedem; a família vista como fracasso de uma sociedade em degradação vai desaparecer.

O Leilão do lote 49 - Thomas Pynchon
O mais misterioso dos escritores da actualidade nos Estados Unidos com uma das suas obras clássicas. Mantém o anonimato. Ninguém o conhece apesar de ter ganho o National Book Award. Não é raro ver ninjas que sabem fazer um toque que corta o fluxo sanguíneo ao cabo de um ano (Quentin Tarantino e Bart Simpson não foram os primeiros a pensá-lo), cabeças nucleares perdidas no deserto. Lote 49 foi considerado por Harold Bloom como um dos melhores romances da língua inglesa no ano de 1966.

Teatro Completo – Sarah Kane, Campo de Letras
Dela disse alguém que faria esquecer Becket.

Rayuela (O jogo do mundo) - Júlio Cortázar
Oliveira, um artista complicado; uma mulher, a Maga que vive, sem grandes explicações no meio do clube da Serpente (um clã de intelectuais), ambos em França nos anos sessenta, julgando o amor e o desamor. Um livro composto por 128 capitulos que pode ser lido de duas formas: a primeira, a leitura dos capítulos 1 a 56; a segunda, de acordo com a sugestão que faz o autor no início do livro, sugere que a novela pode ser lida de forma escalonada com os capítulos prescindíveis, ou seja os que estão depois do final convencional e que vão do 56 ao 128. Uma busca metafísica. Júlio Cortázar é, sem dúvida alguma o autor mais preponderante do Boom Latino Americano.

A Grande Guerra pela Civilização - Robert Fisk
Trata-se de um relato periodista integrado por múltiplos artigos que o jornalista Robert Fisk escreveu desde a sua chegada ao Médio Oriente em 1975. Neste livro não só há História, há também um estudo da situação do Médio Oriente e dos seus principais actores. Uma entrevista que fez a Bin Laden, uma frase de Sadan Hussein (política é fazer exactamente o contrário do que esperam que faça, por isso repreender os que me obedecem por fazê-lo), anedotas sobre Yassef Arafat. Faz uma cartografia do conflito e conta-nos a outra história, a dos invadidos. Um exercício de lucidez, um ensaio que, ao longo de mais de quinhentas páginas, deixa poucas dúvidas sobre a barbárie e a injustiça que impera na região.

O Livro do Deslumbramento – Lord Dunsany, Saída de Emergência
Conjunto de contos de literatura fantástica escritos por Lord Dunsany, aristocrata irlandês dos inícios do século XX, senhor de vários castelos e de um imaginário intensíssimo. A crítica social é subtil e conseguida através da lenda. Atenção ao conto “As preces imprudentes de Pombo, o idólatra”. The book of wonder foi traduzido para português em 2008 pela “Saída de Emergência”
Poesia:
O Livro das aves – Tiago Patrício 2009 – Quasi – Vencedor do Prémio Daniel Faria 2009.
Corvo – Rui Lage – Quasi 2009
Uma Devastação Inteligente – Sara F. Costa (Atelier Editorial) 2007
Fantasmas inquilinos – Daniel Jonas – Cotovia 2005
Nossa Senhora de Quê – Ana Luísa Amaral

Antologia:
Antologia Jovens Escritores 2008 – Clube Português de Artes e Ideias – Antologia dos textos seleccionados para a Mostra Nacional Jovens Criadores 2008.
Revista Criatura nº 3 – 2009
Revista Sin-ismo nº 1: Projecto imaginário e heteroutópico - Abril 2009 : (Apresentação a 29 de Maio no Clube Literário do Porto)

Nuno Brito nasceu no Porto em 1981. É editor da revista Sin-ismo: projecto imaginário e heteroutópico. Integrou a Mostra Nacional Jovens Criadores 2008 na categoria de literatura participando na colectânea “Jovens Escritores 2008” do Clube Português de Artes e Ideias. Em 2008 obteve o primeiro lugar no concurso literário AE/FLUP da Faculdade de Letras do Porto (Poesia). Integrou os workshops de Escrita Criativa orientados pela Professora Ana Luísa Amaral (Reitoria da UP). Actualmente frequenta o Mestrado em História Medieval e do Renascimento e o curso de Teoria da Literatura.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

SUGESTÕES DE LEITURA PARA ABRIL, por Anthero Monteiro

O que pode sugerir um leitor compulsivo de Poesia senão Poesia?

Abril e seus precursores
Tratando-se de Abril, começo por propor a leitura daqueles poetas que, de alguma forma, perseguiram o Sonho e dilataram os horizontes da Utopia. Falo dos Precursores de Abril. É, assim, impossível esquecer aquilo que veio a constituir o verdadeiro manifesto poético do Neo-realismo português: o Novo Cancioneiro, um repositório de 10 livros de poesia publicados em Coimbra entre 1941 e 1944, com nomes como Fernando Namora, Mário Dionísio, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Sidónio Muralha, entre outros.
Para se estabelecer uma relação com outros autores europeus de ideário póximo, sugeriria também um dos meus livros predilectos: Trabalhar Cansa, do italiano Cesare Pavese.

Poetas do Porto
Não sendo do Porto, mas da sua área metropolitana, passo muitas horas da minha vida, há mais de uma década, nesta cidade, dedicando-me à divulgação e leitura da Poesia. Por isso não posso esquecer os poetas portuenses, que são muitos. Por agora, alvitraria a leitura de três poetas vivos:
A obra de João Miguel Fernandes Jorge, por exemplo, Março, os Remadores do Douro, uma dúzia de poemas que têm o Porto como cenário;
A obra de Amadeu Baptista, um devorador de prémios literários em Portugal e no estrangeiro, autor, por exemplo, de A Arte do Regresso e de O Bosque Cintilante;
A obra de Rosa Alice Branco, reunida em Soletrar o Dia, com a sua extraordinária poética da percepção.

Haiku e Poetrix
Cada vez se fala mais em “Poetrix”, uma nova linguagem poética que nasceu no Brasil faz agora dez anos, criada pelo poeta brasileiro Goulart Gomes e que tem milhares de praticantes em todo o Mundo, nomeadamente no Brasil, em Portugal, Espanha, Itália, Estados Unidos, Ásia e toda a América Latina. Publiquei em 2002 o primeiro livro europeu de Poetrix (Esta Outra Loucura) e creio que, neste ano comemorativo de uma década de vida desta nova modalidade em terceto, vamos ouvir falar muito mais dela, nomeadamente no Clube Literário do Porto.

Dado que o Poetrix descende em linha recta do antigo Haiku japonês, proponho que façamos o confronto entre as duas formas, começando por ler O Gosto Solitário do Orvalho, de Matsuo Bashô (tradução de Jorge de Sousa Braga) e À Noite as Estrelas Descem do Céu, de João Pedro Mésseder, ambos sobre o Haiku. Depois, se quiserem mais pormenores sobre o Poetrix e não quiserem dar uma vista de olhos no meu livro, prefaciado por Goulart Gomes, consultem, pelo menos na Internet, o sítio do MIP – Movimento Internacional Poetrix.

Ensaios
Para alargar e alicerçar alguns conhecimentos sobre literatura, poesia e os poetas, sou também leitor assíduo de ensaios. Estou a ler um ensaio recente, que recomendo, O Enigma de Sophia – Da Sombra à Claridade, de Helena Malheiro, sobre a autora, também portuense, do Canto Sexto.
E, finalmente, recomendo também um best-seller em França, mas traduzido para Português, da autoria de Pierre Bayard, Como Falar dos Livros Que Não Lemos?, que está a dar-me muito prazer ler. Não é para aprender como se faz, mas para ter uma ideia do que vejo a outros fazer (do género do Dr. Marcelo).

Anthero Monteiro é Natural de S. Paio de Oleiros, concelho da Feira, é licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras do Porto e Mestre em Estudos Portugueses pela Universidade de Aveiro. Foi professor, autor de livros didácticos (em Portugal e Cabo Verde) e formador de docentes. Coordena várias tertúlias literárias, nomeadamente as Quartas Mal Ditas do Clube Literário. Poeta, diseur, ensaísta, autor de livros de história local, é director de uma biblioteca pública e foi director de um jornal regional. Integra várias antologias literárias, duas delas editadas no Brasil. Publicou, entre muitos outros: A Lia Que Lia Lia, A Sara Sardapintada (poesia infanto-juvenil); Canto de Encantos e Desencantos, O Remédio é Naufragar, Desesperânsia, Esta Outra Loucura (poesia); O Misticismo Laico de Manuel Laranjeira (ensaio).

quarta-feira, 11 de março de 2009

SUGESTÕES DE LEITURA PARA MARÇO, por Luís Tirapicos

Gabriel Walker, Um Oceano de Ar – Uma História Natural da Atmosfera, Europa-América, 2008.
A escrita de Gabriel Walker é elegante e cativa o leitor. Foi um prazer ler esta história natural da atmosfera. Na verdade, várias histórias. Deste o longo mergulho na atmosfera de Joe Kittinger, em 1970, até à investigação das cinturas de radiação por James van Allen, nos primórdios da era espacial, passando pelas engenhosas experiências de filósofos naturais como Priestley ou Lavoisier, de tudo um pouco se pode encontrar nesta narrativa brilhante de uma escritora científica de primeira água. A química da atmosfera é tratada com particular atenção e conhecimento de causa (a autora é doutorada em química). Um dos assuntos em que ficamos com uma visão mais alargada e fundamentada é o da camada de Ozono: os avanços e recuos da investigação são relatados com rigor e detalhe.
A ideia de nos vermos como seres que habitam o fundo de um imenso oceano de ar não deixa de ser estimulante. Foi proposta por Torricelli, discípulo de Galileu.

Janet Browne, A Origem das Espécies de Charles Darwin, Gradiva, 2008.
Em ano de comemorações Darwinianas esta sugestão não podia faltar. Janet Browne, professora na Universidade de Harvard, é uma das maiores especialistas na história da biologia do século XIX e talvez a mais conceituada biógrafa de Darwin. Aqui escreve sobre um dos mais influentes livros da história das ciências: «A Origem das Espécies». Começa pelo caldo cultural da época, o cenário que enquadrou a génese da obra. Em seguida, analisa os contornos da sua publicação e, por fim, debruça-se sobre as reacções e apropriações do livro nos mais diversos sectores da sociedade vitoriana. Esta obra foi escrita num tom escorreito e constitui uma excelente introdução ao tema.

Charles Darwin, A Origem das Espécies, Europa-América, 2005.
Depois da contextualização de Browne, proponho a leitura da própria obra de Darwin. Nos últimos tempos tenho-me recordado com frequência da frase de uma autora francesa chamada Germaine Aujac. Escrevia ela logo na primeira frase de uma tradução de vários textos de Ptolomeu: «Ptolomeu é um autor de que falamos muito mas que lemos pouco.» Para evitar cair-mos no erro de comentar Darwin sem o ler nada melhor do que percorrer as páginas desta tradução de «A origem das Espécies.» O estilo de Darwin não é difícil de seguir e esta edição trás mesmos um glossário (inserido na sexta edição) que ajuda o leitor não especialista a compreender o vocabulário técnico.

David Bodanis, O Universo Eléctrico – A verdadeira e surpreendente história da electricidade, Gradiva, 2008.
Nos últimos dois séculos a electricidade ganhou um papel no nosso quotidiano que torna a leitura deste livro quase obrigatória. As mudanças civilizacionais proporcionadas pelo domínio dos electrões são, sem dúvida, avassaladoras. Reflectem-se, por exemplo, no computador em que escrevo estas linhas e naquele em que o leitor as irá ler. Além dos aspectos históricos tratados, a informação científica é servida neste livro numa linguagem acessível e cativante. Acima de tudo o autor – professor de história das ideias em Oxford – tem um sentido apurado para boas histórias. Imagine-se que uma das mais revolucionárias invenções do século XIX, o telégrafo, se deve em parte à necessidade que Joseph Henry teve de entreter alunos difíceis numa escola de Albany. Henry, que se tornaria um dos cientistas mais famosos da América, envolveu os seus estudantes em experiências com fios e bobinas, transmitindo sinais a metros de distância.


Luís Tirapicos é jornalista e escritor científico freelancer. Trabalhou durante seis anos no Departamento de Conteúdos do Visionarium - Centro de Ciência do Europarque, em S. Maria da Feira. Tem colaboração dispersa por publicações como a National Geographic Portugal, Expresso, Boletim da Universidade do Porto ou o Journal for the History of Astronomy. Como investigador independente tem colaborado em trabalhos no domínio da Arqueoastronomia.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

SUGESTÕES DE LEITURA PARA FEVEREIRO, por Daniel Maia-Pinto Rodrigues

A faca não corta o fogo, Herberto Helder, Assírio & Alvim
O regresso do grande mago da poesia portuguesa. Há alquimia, ainda. Fico satisfeito.

Myra - Maria Velho da Costa, Assírio & Alvim
Bela história de uma rapariga e de um cão, com uma passagem pelo Porto, com uma passagem, ou mais, para dentro de nós.

Têmporas da cinza - A.M. Pires Cabral, Livros Cotovia
Mais um bom livro de um poeta que só agora começa a ter o reconhecimento que há muito merece. Neste autor, que não conheço pessoalmente, adivinha-se alguém com educação. Razão mais do que suficiente para, também, se ficar satisfeito.

American Scientist - António Gregório, Quasi Edições
A pouca atenção com que folheava este livro foi, no entanto, o bastante para perceber que o deveria ler com a máxima atenção. Encontrei imagens congruentes - ora calmas, resfolegadas, ora distanciadas, perdidas, ora aconchegantes, caseiras, ora tensas, reflectidas - e muito belas, fruto do próprio cérebro, e não obra do desgastado papel químico com as “instruções oficiais” para se ser poeta. Nunca vi António Gregório, diga-se de passagem.

O livro inclinado - Peter Newell, Cosac & Naify
Uma história ilustrada para crianças, na melhor tradição do humor clássico inglês.


Daniel Maia-Pinto Rodrigues é autor de “Vento“, Porto, Edição de autor, 1983; “Conhecedor de Ventos”, Porto, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, 1987; “A próxima cor”, Prémio Nacional Foz Côa/86, Menção Honrosa Novos Valores da Cultura, 1988, Porto, Pinguim Poesia Bar, 1993; “O Valete do Sétimo Naipe”, Porto, Felício Cabral Publicações, 1994 (reedição Corpos Editora, 2005); “O Céu a Seu Dono”, co-autoria com João Gesta, Santiago de Compostela, Edicións Positivas, 1997; “A Sorte Favorece os Rapazes”, Porto, Fundação Ciência e Desenvolvimento /Teatro do Campo Alegre, 2001; “O Afastamento Está ali Sentado”, Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2002; “O Diabo Tranquilo”, co-autoria com Isabel Rio Novo, Porto, Campo das Letras, 2004; “Malva 62”, Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2005; “O Corredor Interior”, Porto, Clube Literário do Porto, 2006.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

SUGESTÕES DE LEITURA PARA JANEIRO por António Pedro Ribeiro

“Assim Falava Zaratustra“ - Friedrich Nietzsche, Relógio D’ Água Editores

Longo poema profético, anti-Bíblia, assim se pode caracterizar “Assim Falava Zaratustra”, a obra imortal de Friedrich Nietzsche.
“Zaratustra” é uma crítica ao cristianismo e às sociedades do rebanho. Não se dirige ao que se dilui na multidão, ao que age sempre como os outros agem, ao que não tem rosto, ao que não possui o poder de uma vontade afirmativa. Não faz a apologia dos pobres, dos humildes, dos doentes, dos fracos nem promete o Reino dos Céus. O profeta Zaratustra nega o Reino dos Céus e proclama a morte de Deus. A morte de Deus representa o fim e o declínio da formulação de Deus que a metafísica clássica ocidental construiu. A ideia de Deus para o cristianismo corresponde a um sistema de valores que, segundo Nietzsche, o homem deveria abandonar e substituir por outro. A resignação, a docilidade, a simplicidade e o servilismo seriam substituídos pelo orgulho, pelo egoísmo, pela vontade de potência, pela sensualidade e pela nobreza de espírito. O homem procede à transvalorização de todos os valores. Mas não qualquer homem. O homem superior, o super-homem. Zaratustra fala aos vencedores, aos afirmadores da vida, aos que querem viver o aqui e o agora, aos que têm a Terra como único reino. Zaratustra opõe-se aos sacerdotes e aos moralistas, aos “acusadores da vida”, aos que negam e detestam a vida, aos que reprimem e condenam a volúpia, aos que associam as paixões e as pulsões vitais ao diabo e ao pecado, aos que pregam o Outro Mundo. Celebra a carnalidade, a vida vivida, a sensualidade, o simples gozo de existir.
“Zaratustra” é também um hino à liberdade, à liberdade de criação, ao espírito livre. O homem superior é um menino e um grande bailarino. “É aquele que não tem preconceitos, que faz da vida um jogo permanente, que se passeia na corda-bamba do devir”. O menino, a criança é o criador de novos valores, é o espírito livre. O querer liberta. A vontade que cria é libertadora. O homem superior é o homem livre.


“Memórias de um Alcoólico“ - Jack London, Edições Antígona

“Os devotos de John Barleycorn são assim. Quando lhes bate à porta a boa sorte, bebem. Quando não têm sorte, bebem na esperança de boa sorte. Se a sorte é madastra, bebem para esquecer. Se encontram um amigo, bebem. Se discutem com um amigo e perdem essa amizade, bebem. Se os seus assuntos amorosos são coroados de sucesso, ficam tão felizes que é obrigatório beberem. Se forem abandonados, bebem pela razão contrária. E se não têm nada para fazer, pois bem, tomam uma bebida, seguros de que, quando tiverem tomado um número suficiente de bebidas, as larvas começarão a rastejar nos seus cérebros e não terão mãos a medir com coisas para fazer. Quando estão sóbrios querem beber, e, quando bebem, querem beber mais.”
“Memórias de um Alcoólico” de Jack London é um tratado quase sociológico e sem falsos moralismos acerca do consumo do álcool e do alcoolismo. London descreve magistralmente a vida de “saloon” no início do séc. XX e a sua relação com o álcool. A bebida como sinal de virilidade e de sociabilização, a bebida ao lado da aventura e do romance, a bebida como símbolo de camaradagem, a dependência e os efeitos, está tudo na prosa de London que, em conclusão, defende a proibição do álcool.


“Guy Debor“ - Anselme Jappe, Edições Antígona

Anselm Jappe analisa o percurso teórico do principal mentor da Internacional Situacionista, Guy Debord.
Vivemos numa sociedade-espectáculo, uma sociedade marcada pela contemplação passiva de imagens, escolhidas por outros, que substitui a vivência e a capacidade de modificar os acontecimentos por parte do individuo. O espectáculo torna a comunicação exclusivamente unilateral, é aquele que fala enquanto os outros se limitam a escutar. A separação está na base do espectáculo. Às celebridades, aos actores ou aos políticos cabe representar os aspectos ausentes da vida pobre e desinteressante dos restantes indivíduos. Em todas as esferas da vida a realidade é substituída pela sua imagem.
Não é do homem e das suas obras que o espectáculo trata mas da mercadoria e das suas paixões. Toda a vida humana se submeteu às leis da economia. A Internacional Letrista, os situacionistas e a arte, a crítica da vida quotidiana, os situacionistas e os anos 60, Maio de 68 e depois e o mito Debord são outros dos temas abordados.


A. Pedro Ribeiro nasceu no Porto em Maio de 68. É licenciado em Sociologia e foi fundador da revista “Aguasfurtadas”. Vocalista da banda punk-rock MANA CALORICA & LAS TEQUILLAS. e desde há 19 anos que diz poesia e actua em performances poéticas por todo o país.

“Saloon” é o título do seu último livro de poesia, publicado pelas Edições Mortas. Publicou ainda a "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro. Manifestos do Partido Surrealista Situacionista Libertário" (Objecto Cardíaco, 2006), ("Sexo, Noitadas e Rock n' Roll" (Edição Pirata, 2004) e "À Mesa do Homem Só. Estórias" (Silêncio da Gaveta, 2001).
- escreve nos blogues Trip na Arcada e Xamãs.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

SUGESTÕES DE LEITURA PARA DEZEMBRO, por Rui Manuel Amaral

Miguel de Cervantes, O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha, Relógio D’Água, 2005

O que é que ainda falta dizer a propósito de Dom Quixote? Um livro que marcou todo o cânone literário ocidental e cuja frescura se mantém intacta, ano após ano, século após século, desde que se publicou o primeiro volume, entre 1604 e 1605? Um livro tão ou mais moderno do que qualquer outro acabado de sair do prelo? Um livro que transcende a própria literatura?
Pode ler-se cem vezes o romance do Engenhoso Fidalgo e de todas elas encontrar-se-á novos e acrescidos motivos para saborear as suas inesgotáveis situações cómicas, o tom non sense de muitos dos seus diálogos, os seus impagáveis personagens maiores do que a vida.
Em 2005, ano em que se comemoraram os 400 anos da publicação dos primeiros exemplares da obra, a Relógio D’Água e a Dom Quixote lançaram duas novas edições do romance de Cervantes, com traduções de José Bento e Miguel Serras Pereira, respectivamente. Se há livro de leitura e releitura obrigatórias, esse livro é o Dom Quixote.



Laurence Sterne, Vida e Opiniões de Tristram Shandy, 2 vols., Antígona, 1997.

Tristram Shandy ou o “livro dos livros”, como escreve Manuel Portela, o tradutor da única versão portuguesa da obra-prima de Laurence Sterne, começou a ser publicado em 1759, a expensas do próprio autor, depois de vários editores terem recusado fazê-lo. Em poucas semanas transformou-se num dos maiores fenómenos de vendas do seu tempo. Um best-seller com milhares de exemplares vendidos e várias reimpressões, para glória e fortuna do reverendo Sterne.
O motivo para tão entusiástico sucesso parece-me relativamente simples de explicar. É que não há nada mais divertido do que ver a respeitável, altiva e orgulhosa literatura tropeçar logo na primeira frase do livro, e cair aos trambolhões ao longo de nove extensos volumes e trinta e três capítulos, sem pausas para recobrar a compostura.
Depois do Shandy, a literatura apresenta-se de rastos, descabelada, desfigurada, desconcertada e acometida por um violento ataque de nervos. Não há cânones, convenções ou formalismos que resistam ao diabólico poder satírico de Sterne. Como diz Manuel Portela, “Tristram Shandy é um manifesto da liberdade de escrita e dos poderes do livro”.



Fiódor Dostoiévski, A Submissa e Outras Histórias, Editorial Presença, 2006.

Décimo quarto volume das obras de Fiódor Dostoiévski, editadas pela Presença. Reúne um conjunto de contos, escritos entre 1862 e 1877, menos conhecidos no quadro da obra canónica do autor russo, mas que revelam um Dostoiévski surpreendentemente divertido e muito próximo, por exemplo, da tradição satírica de Gógol.
“Uma História dos Diabos”, “Apontamentos de Inverno sobre Impressões de Verão” e o fantástico “Crocodilo”, exploram magistralmente o humor, a sátira e a paródia para ridicularizar os poderes da época (social, político, económico), e são dos contos mais desconcertantes e divertidos da literatura russa.
A quem interessar esta faceta, digamos, mais cómica de Dostoiévski, outro livro imperdível é “Um Sonho do Tio” (Assírio & Alvim, 2000). Ambos traduzidos pelos incontornáveis Nina Guerra e Filipe Guerra.


Augusto Monterroso, A Ovelha Negra e Outras Fábulas, Angelus Novus, 2008.

Um macaco que queria ser um escritor satírico, a mosca que sonhava ser uma águia, o mocho que queria salvar a humanidade, o camaleão que decididamente não sabia que cor escolher para si e um cavalo a imaginar Deus. Eis algumas das histórias que fazem deste livro uma verdadeira preciosidade.
“A Ovelha Negra” é um conjunto de pequenas ficções povoadas por bichos raros e caprichosos que, entre outras excentricidades, estão apostados em subverter todas as fórmulas e convenções da fábula clássica. Tudo isto resulta num imenso divertimento e num olhar muito peculiar sobre a natureza humana, pleno de humor e sarcasmo. O autor explica: “O humor é o realismo levado às últimas consequências. Com a excepção da literatura pseudo-humorística, tudo o que o homem faz é risível e jocoso.”
Augusto Monterroso (1921-2003) é tradicionalmente considerado um dos principais mestres do conto breve e este livro é o volume inaugural da colecção “Microcosmos”, a primeira em Portugal dedicada exclusivamente à microficção. A tradução, irrepreensível, é de Ana Bela Almeida.


Rui Lage, Corvo, Quasi, 2008

Declaração de interesses: sou amigo do autor. Ora, mesmo correndo o risco de estar a violar alguma espécie de lei das incompatibilidades, não posso deixar de recomendar a última obra de Rui Lage, “Corvo”. Este é simplesmente o mais belo livro de poemas que li em 2008. Um olhar duro e acutilante do Portugal dos nossos dias. Um país que voltou as costas a si próprio, em nome de uma falsa modernidade e de uma ideia de progresso que não passa, como é sabido, da mais pura ficção. “Corvo” é um retrato brutal de nós mesmos, temperado com uma delicadíssima dose de humor e ironia que o tornam verdadeiramente singular. Um exemplo:

AS ÚLTIMAS ALDEIAS
Tão curta visita
ó pais domingueiro
do verso cosmopolita:
amanhã também te vais
quem ficará para tocar
o gado por esses montes,
travar a fome das silvas
a bocarra dos matagais,
quem salvo gatunos
de mochilas com vontade
ao recheio de molduras,
lustres, santos de altar,
incensórios, castiçais,
até que o cerco do mato
rasure dos mapas a placa
como dos trilhos faz tempo
o chiar do carro de bois?




Rui Manuel Amaral nasceu no Porto, em 1973, cidade onde vive. É coordenador literário da revista aguasfurtadas. Caravana é o seu primeiro livro. Colabora no blogue Dias Felizes e é também baterista da banda rock The Jills.

sábado, 1 de novembro de 2008

SUGESTÕES DE LEITURA PARA NOVEMBRO, por Nuno Higino

Como o Outono é uma boa estação para ler poesia, proponho para leitura do mês de Novembro 3 livros de poesia, embora apenas um deles seja formalmente um livro de poesia:
Manuel Gusmão é, juntamente com Herberto Helder, um dos meus poetas de devoção. Aconselho Migrações de fogo. É uma poesia que ainda guarda relação à terra, aos afectos, às palavras. E isso é bom para marcar a diferença daqueles que hoje preferem e valorizam uma poesia mais conceptual.


“Dizer-te depois do mundo” - Nuno Viana, Letras e Coisas (2007)

Apesar de muito jovem, Nuno Viana é uma grande esperança de renovação da nossa poesia. Este seu livro podia estar completamente branco no miolo, pois o título valeria o dinheiro da compra. Mas não está. Está cheio de poesia e de promessa.


Mais poesia e da melhor, apesar de formalmente não o parecer. Como são profundos estes rios de Luandino. E imprevisíveis. E difíceis de navegar. Mas sobre Luandino não devo dizer mais. Por pudor.

Nuno Higino nasceu em Felgueiras em 1960. Entrou para o Seminário no fim da 4ª classe e por lá ficou até ao final do curso de Teologia (1984). Foi ordenado padre em 1985. Esteve 4 anos no Seminário do Bom Pastor (Ermesinde) onde foi educador e professor de Português. Esteve 13 anos como pároco em Marco de Canaveses. Em 2001 foi para Madrid estudar Filosofia da Arte onde se doutorou em 2007. Entretanto, em finais de 2004 abandonou o sacerdócio. É professor na Universidade Fernando Pessoa e investigador do Centro de Estudos Portugueses da Universidade Católica. Tem publicados 12 livros para crianças e 4 de poesia.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

SUGESTÕES DE LEITURA PARA OUTUBRO por Rui Costa

“Rimbaud” - Yves Bonnefoy, Cotovia (2004)

Nunca fui fanático de biografias mas esta conquistou-me. Bonnefoy alia a inteligência à sensibilidade, a intuição à lucidez, e isto é raro como o rapaz de olhos azuis que escreveu tudo até ao fim da infância, marcada pelo “atentado metafísico” que sofreu através da mãe, que lhe suscita a frase: “A Senhora está demasiado a prumo na planície.” Mas talvez nunca tenha conseguido libertar-se dela, nem de Cristo, “o eterno roubador de energias.” O amor não lhe calha bem, é um inválido do coração, mas nunca renuncia ao desejo. Não encontra a vida verdadeira (isto é lá coisa que se encontre?) e acaba paralisado numa cama, de regresso à esfera materna, pronto a morrer no açougue onde o canibalizamos ainda um pouco mais.


Um livro de micro-ficção, um “não-género” que dá os primeiros passos em Portugal. Como escrevi num artigo recente para uma revista, “o que mais me atrai na micro-ficção é a sua extrema aptidão para a promiscuidade. A micro-ficção não é um género literário, é a riqueza da impossibilidade de o ser. Confunde os géneros e deixa-nos (bem) perdidos no caminho para qualquer definição.” Rui Manuel Amaral, cujos textos conhecíamos do blog “dias felizes”, também participa na “Primeira Antologia de Micro-ficção Portuguesa” (Exodus, 2008), que organizei. Em “Caravana” dá-nos textos como este:

“O meteorologista”
Quando o sol tem dificuldades de natureza interna e não consegue evacuar as matérias redundantes, enfia um meteorologista no cu. (Infelizmente não sou poeta e por isso não sei dizer isto de uma maneira mais bela e justa.) Pois bem, só depois de o astro-rei se sentir aliviado das desordens e angústias do corpo, as previsões voltam a bater certo.
São assuntos de que a ciência evita falar.


1. “Estórias Domésticas” é uma casa-fialho, antítese da casa-televisão que aparece na capa, metáfora inversa e desligada porque vinda do futuro, como um ovni ou aquela pedra negra do filme do Kubrick que tanto perturba os macacos.

2. A casa-fialho é uma casa-corpo, isto é, uma casa-macaco, o mais longínqua possível dos seres que nos visitam e se deixam entrever nas alucinações motivadas por insuficiência alcoólica. Fialho é fialho e não gosta de cyborgs, a menos que se chamem, por exemplo, moura ou guerreiro ou quitéria.

3. Existir é representar mais uma vez a corrupção do corpo, castigá-lo até ao esquecimento. Esquecimento é uma palavra-órgão do corpo-fialho e daí a insónia, porque a insónia resulta do terror do sono onde não haja mais nada para esquecer. Não haver nada para esquecer é igual a perder o corpo. É como não haver mais álcool pra beber ou cigarros pra fumar, quase tão mau como, por exemplo, ter uma obra ou conquistar a santidade.

4. A salvação – essa puta – é tornarmo-nos, pela primeira vez na nossa epopeia azul, mortais. O corpo-fialho não quer ser Travolta, quer ser um “Travolta qualquer” (p 86), esse mesmo que diria “cozi-me por dentro” (p 25), “cortar-me todo” (p 35), “até desfazer retinas” (p 44) ou “estive perto de me afogar” (p 34); Travolta, como um verdadeiro herói, ter-se-ia afogado.

5. Claro que o autor-fialho depois (de fechar o livro) liga a televisão. Faz dieta durante alguns minutos, respira fundo três vezes, preocupa-se com não desiludir o editor. Sabendo que as estórias domésticas são apenas quase verdadeiras, voltamos a lê-las mais um ror de vezes.

“A Resistência dos Materiais” - Rui Costa, Exodus (2008)

É o romance/trance que publiquei no início de 2008. Sobre ele disse Henrique Fialho isto: “A Resistência dos Materiais - romance alegórico para ser lido como um longo poema em prosa, escrito num ritmo que nunca entedia a leitura e desafia constantemente a imaginação do leitor, revelador de uma capacidade narrativa que, pretendendo fugir à banalidade, nunca resvala num hermetismo infundamentado. O grau de dificuldade deste romance é proporcional à inércia do leitor, ao pouco empenho que possa este revelar na fruição de uma história contada como um rastro que se vai deixando num matagal de metáforas extraordinárias. Há uma cidade, e na cidade decorre uma investigação científica sobre a propriedade das sombras. Os frutos dessa investigação terão consequências inimagináveis ao nível do domínio e da capacidade de influenciar os comportamentos humanos, pelo que importa manter o maior sigilo acerca das conclusões entretanto alcançadas. O que teremos, então, é uma metaforização das relações de poder estabelecidas, numa qualquer sociedade, entre os diversos agentes envolvidos numa investigação, na descoberta da verdade, na ânsia do poder. Desde logo, a negra Rafaela, filha do Comissário das Novas Descobertas, onde todas as sombras serão depositadas; o Escritor, aquele cuja função é roubar as sombras dos vivos; Maria, a mulher sem sombra que pode penetrar nas sombras dos outros, a quem cabe roubar as sombras dos mortos; os Donos, modo subjectivo de chamar à liça os homens que detêm o poder, sejam eles políticos, forças económicas, etc…” (in http://antologiadoesquecimento-leituras.blogspot.com/2008/05/resistncia-dos-materiais.html )



Rui Costa nasceu no Porto em 1972. Estudou Direito em Coimbra e foi advogado durante seis anos, em Lisboa e Londres. Concluiu um mestrado em Saúde Pública em Leeds, Inglaterra. Actualmente é professor na Escola Superior de Saúde do Vale do Ave.


Em 2005 publicou “A Nuvem Prateada das Pessoas Graves” (Quasi Edições), livro vencedor do Prémio de Poesia Daniel Faria. Em 2007 recebeu, pelo romance “A Resistência dos Materiais”, o Prémio Albufeira de Literatura. Participou em diversas publicações, nomeadamente: “Poema Poema -Antologia de Poesia Portuguesa Actual” (U.Stabile, Huelva, 2006); “A Sophia – Homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen” (Caminho, 2007); “Um Poema para Fiama” (Labirinto, 2007); “Sulscrito – Revista de Literatura” (Arca, 2007).

- colabora no blogue Insónia

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

SUGESTÕES DE LEITURA PARA SETEMBRO, por Carlos Luís Ramalhão

Aqui ficam as propostas de Carlos Luís Ramalhão para o mês de Setembro:

“Os Maias” - Eça de Queirós, Porto Editora, 2007
Ainda me choca ouvir dizer, a actuais e antigos estudantes, que este livro é um “terror” ou uma “seca”. Depois lembro-me de que são obrigados a lê-lo, quando a leitura, idealmente falando, deveria ser espontânea. Negligenciada de forma descarada por muitos, esta é a obra-prima do maior romancista português. Inesquecível. Simples, mas nunca básico. Clássico, mas agora e sempre actual.

“Trainspotting“ - Irvine Welsh, Relógio D’Água, 1996
Primeiro, vi o filme (umas quinze vezes), muito por culpa de uma banda sonora irresistível. Quando peguei no livro, esperava encontrar o conteúdo do filme. Mas o autor – nu, violento, às vezes repugnante – tinha muito mais a contar do que uma fita de cinema conseguia armazenar. É um retrato desconcertante de duas décadas: a de 80, na acção do livro; a de 90, altura em que a obra foi lançada para deixar marcas.

“Meia-noite ou o Princípio do Mundo“ - Richard Zimler, Gótica, 2003
Há pessoas que admiramos e que nos desiludem quando nos cruzamos com elas. Mas Zimler, professor de uma cadeira que nunca foi das minhas favoritas, é tão cativante como as entrevistas que dá. E como os seus livros. Este é o mais fascinante deles todos. Pela envolvência. Pela forma como vivemos o livro quase sem dar por isso. Pela extraordinária personagem que lhe dá nome.

“Quarto com vista“ - E.M.Forster, Colecção Mil Folhas do Jornal Público
Forster só me foi apresentado graças à excelente colecção Mil Folhas, do Público (passo a publicidade). Mas rapidamente se tornou referência, seja com Maurice, com Passagem para a Índia, ou com este, que continua a ser o meu favorito. Mordaz na ironia, poético nas descrições, astuto nas relações humanas.

“Carícias Distantes” - Deborah Curtis, Assírio & Alvim, 1996
Talvez este livro não esteja tanto aqui por mérito próprio, muito mais por ser uma biografia – discutida – de um mito da música e da poesia do século XX. Deborah, a viúva precoce do complexo Ian Curtis – ilustre conterrâneo meu, by the way – leva-nos a percorrer a intimidade distante – como as carícias – desse epiléptico escritor de canções como “Love will tear us apart” ou “Shadowplay”. Marcante.


Carlos Luís Ramalhão nasceu em 1980, em Manchester, Reino Unido, e vive na Maia. Licenciou-se em Jornalismo e Ciências da Comunicação pela Universidade do Porto. Tem trabalhado em projectos ligados a essa área, entre os quais um documentário feito nos EUA para a RTP. Paralelamente, tem desenvolvido projectos em vídeo, música, fotografia e, claro, literatura.

Publicou, em 2007, juntamente com outros autores, o livro “Taxicidade” – histórias de um táxi no Porto – pela Pé de Página. - saber mais aqui sobre Carlos Luís Ramalhão.

sábado, 9 de agosto de 2008

SUGESTÕES DE LEITURA PARA AGOSTO por Alexandra Malheiro

Inauguramos hoje uma nova coluna de recomendações, um espaço mensal em que escritores partilham com o CLP as suas sugestões de leitura.

A abrir este espaço, aqui ficam as propostas de Alexandra Malheiro para o sol do mês de Agosto.


PROSA
“O outro pé da sereia” – Mia Couto, Companhia das Letras
Viagem mágica que que cruza história e fantasia numa escrita que constantemente reinventa a língua. Ideal para relaxar e deixar rédea solta à fantasia.

“Uma história de amor e trevas” – Amos Oz , ASA
Romance autobiográfico magnífico, escrito de uma forma brilhante e com uma sensibilidade única. Um relato de cerca de 120 anos de “amor e trevas” vividas à luz do judaísmo e dos que tornaram à terra prometida fundando o estado de Israel, passando pelo conflito eterno da Israelo-Palestinino. Nele encontramos sorrisos e lágrimas e é ao mesmo tempo uma lição de história e contra o fundamentalismo.

POESIA

“A noite abre meus olhos” [poesia reunida] – José Tolentino de Mendonça, Assírio & Alvim
“Bíblia” a levar para toda a parte, sobretudo para destinos de férias onde se pretenda “reformatar o disco” – a linguagem única do Amor na origem de tudo, a Poesis – o Amor como Deus para crentes e não crentes. São estas todas as palavras do Amor, da poesia. A ler e reler, sempre.


ENSAIO
“O silêncio dos livros” – George Steiner , Gradiva
Curta mas pertinente ingressão à história dos livros, a sua importância e a sua fragilidade.




Alexandra Malheiro nasceu a 4 de Julho, do ano de 1972, já a noite cobria a cinzenta e granítica cidade do Porto, onde reside até hoje, chamando-lhe a raiz de todos os Poemas. Licenciou-se em Medicina na Universidade do Porto (FMUP) em 1996 e é especialista em Medicina Interna.

Participou na Antologia “Poesia SMS” (Elefante Editores - 2003) e é autora de “Sombras de Noite” (Elefante Editores - 2004), “Circulação Transversa” (Corpos Editora - 2005) e “A Urgência das Palavras” (Edições Ecopy - 2008). - para saber mais sobre Alexandra Malheiro